O mercado de segunda mão global cresce 25% ao ano e deve atingir US$ 350 bilhões até 2027, segundo a ThredUp. No Brasil, o Enjoei faturou mais de R$ 100 milhões em 2023. A OLX movimenta milhões de transações mensais. Mas o dado que muda a conversa é este: marcas que antes viam o mercado de usados como ameaça agora estão criando seus próprios programas de revenda. A Renner lançou o Repassa. A C&A criou o Movimento ReCiclo. A Arezzo investiu na Troc.
Resumo rápido: E aqui está o que a maioria das análises superficiais ignora: o recomércio não canibaliza a venda de produtos novos. O crescimento é impulsionado por três forças convergentes:
Isso não é filantropia e não é marketing verde. É estratégia de negócio. O recomércio (ou recommerce) está se consolidando como um canal de receita e um instrumento de fidelização que faz sentido econômico. A economia circular deixou de ser pauta de ESG para virar pauta de P&L.
E aqui está o que a maioria das análises superficiais ignora: o recomércio não canibaliza a venda de produtos novos. Pesquisa da Patagonia mostrou que clientes que participam do programa Worn Wear (revenda de usados) gastam 50% mais em produtos novos da marca. O consumidor que revende um item antigo usa o crédito para comprar um novo. É um ciclo que gera mais receita, não menos.
Neste artigo, analiso como o recomércio funciona como estratégia de e-commerce, quais modelos estão ganhando tração no Brasil e o que você precisa avaliar antes de entrar nesse mercado.
O que é recomércio e por que ele está crescendo
Recomércio é a venda de produtos usados, devolvidos, recondicionados ou excedentes de estoque através de canais digitais. Inclui desde plataformas especializadas (Enjoei, Troc, Repassa) até programas de take-back de marcas (onde o consumidor devolve o produto usado e recebe crédito para compras novas).
O crescimento é impulsionado por três forças convergentes:
Pressão econômica. Com inflação e poder de compra pressionado, o consumidor brasileiro busca alternativas mais acessíveis. Produtos de segunda mão com qualidade verificada atendem a essa demanda sem o estigma que existia há 10 anos.
Mudança geracional. A Geração Z e os Millennials não apenas aceitam comprar usado — preferem. Pesquisa da ThredUp mostra que 62% dos consumidores da Gen Z buscaram produtos de segunda mão antes de comprar novos. Para essa geração, sustentabilidade é critério de compra, não diferencial.
Infraestrutura digital. Plataformas de recommerce amadureceram: autenticação de produtos, logística reversa, curadoria de qualidade e experiência de compra comparável ao e-commerce de produtos novos. O atrito que fazia comprar usado ser inconveniente diminuiu drasticamente.
“O mercado de segunda mão crescerá duas vezes mais rápido que o varejo de moda tradicional até 2030. Marcas que não participarem desse mercado vão perder receita para quem participa.”
Relatório ThredUp Resale Market Report, 2024
Modelos de recomércio que funcionam no Brasil
Plataformas de revenda peer-to-peer
Enjoei, OLX e Mercado Livre (para usados) conectam vendedores individuais a compradores. O modelo é escalável porque a plataforma não precisa ter estoque — atua como intermediária, cobrando comissão sobre vendas. Para quem vende online, essas plataformas podem ser canal de escoamento de devoluções e estoque parado.
Programas de trade-in de marcas
A marca oferece crédito ao consumidor que devolve um produto usado, e revende esse item (após curadoria e higienização) em um canal dedicado. A Renner faz isso com o Repassa. A Apple faz com o Apple Trade In. O benefício é triplo: gera receita adicional, fideliza o consumidor (que volta para usar o crédito) e reforça o posicionamento de sustentabilidade.
Outlets de estoque excedente e devoluções
Produtos devolvidos, de coleções passadas ou com embalagem danificada podem ser vendidos com desconto em canais de recommerce. Em vez de liquidar no atacado com perda total, a venda direta ao consumidor final com desconto preserva parte da margem e evita desperdício.
Recomércio de luxo e autenticação
No segmento de luxo, o recomércio cresce ainda mais rápido. Plataformas como a Troc (que recebeu investimento da Arezzo) e a Vestiaire Collective operam com autenticação profissional de bolsas, relógios e acessórios de grife. O consumidor de luxo aceita pagar 60% a 70% do valor original por um item autenticado e em bom estado. A margem para o intermediário é significativa.
“Recomércio não canibaliza vendas. Na maioria dos casos, o crédito gerado pela devolução de um produto usado financia a compra de um produto novo. É retenção disfarçada de sustentabilidade.”
Pesquisa Bain & Company sobre Circular Economy in Retail, 2024
Como integrar recomércio à sua operação de e-commerce
Comece com o que você já tem
Produtos devolvidos, estoque de coleções passadas, itens com embalagem avariada — todo e-commerce tem ativos parados que podem gerar receita em um canal de recommerce. Antes de criar um programa sofisticado de trade-in, venda o que está parado. Uma seção de “outlet” ou “segunda chance” no seu site é a versão mais simples de recomércio.
Avalie a logística reversa
O gargalo do recomércio é a logística reversa: receber o produto usado, avaliar a condição, higienizar/recondicionar e disponibilizar para venda. Se sua operação logística já é complexa, adicionar logística reversa exige planejamento. Parcerias com empresas especializadas (como a Repassa e a Troc) podem absorver essa complexidade.
Posicione como valor, não como desconto
Recomércio não é outlet de desespero. É canal de valor. A comunicação importa: “seminovo verificado”, “segunda vida com garantia”, “autenticado e aprovado”. A percepção de qualidade e curadoria diferencia recomércio estratégico de brechó online.
O papel do ESG e a pressão regulatória
A União Europeia já avança com regulamentações que exigem que marcas de moda assumam responsabilidade pelo ciclo de vida do produto — incluindo descarte e reuso. No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. A tendência regulatória é clara: o custo de não ter uma estratégia de economia circular vai aumentar.
Para PMEs, isso pode parecer distante. Mas as tendências regulatórias se tornam exigências de mercado antes de se tornarem lei. Consumidores e plataformas já pressionam por práticas sustentáveis. Quem se antecipa transforma compliance em vantagem competitiva.
Números que justificam a atenção
O mercado de recommerce no Brasil cresce entre 20% e 30% ao ano. O Enjoei tem mais de 8 milhões de usuários cadastrados. A Troc processa milhares de itens de luxo por mês. O Mercado Livre criou categorias específicas para recondicionados com garantia. Esses não são números de nicho — são números de mercado em consolidação.
Para o lojista, a oportunidade está em três frentes: receita adicional (vender o que hoje é custo — devoluções e encalhe), fidelização (programas de trade-in que trazem o cliente de volta) e posicionamento (ser visto como marca responsável em um mercado onde isso pesa na decisão de compra).
“Economia circular não é sobre ser ‘verde’. É sobre extrair mais valor de cada produto, em cada estágio do seu ciclo de vida. Quem entende isso ganha margem. Quem não entende, joga receita no lixo — literalmente.”
Relatório Ellen MacArthur Foundation sobre Circular Economy, 2024
Perguntas frequentes sobre recomércio
Recomércio funciona para qualquer categoria de produto?
Funciona melhor para produtos duráveis com valor de revenda: moda, eletrônicos, móveis, livros, brinquedos, artigos esportivos. Produtos consumíveis ou de uso único não se aplicam. A regra é: se o produto mantém funcionalidade e valor percebido após o primeiro uso, há oportunidade de recomércio.
Como garantir qualidade em produtos de segunda mão?
Curadoria e transparência. Classifique os produtos por condição (novo sem embalagem, seminovo, usado com desgaste), fotografe detalhes e ofereça política de devolução. A confiança do comprador depende de saber exatamente o que está recebendo.
Recomércio prejudica a venda de produtos novos?
Os dados indicam o contrário. Programas de trade-in aumentam a frequência de recompra porque o consumidor usa o crédito da revenda para comprar novos. Além disso, o recomércio atrai consumidores sensíveis a preço que não comprariam o produto novo — ampliando a base de clientes, não dividindo a existente.
Qual plataforma usar para começar com recomércio no Brasil?
Depende do seu segmento. Moda: Enjoei, Repassa, Troc. Eletrônicos: Mercado Livre (programa de recondicionados), OLX. Multisegmento: criar uma seção de outlet/segunda chance no seu próprio e-commerce é o caminho com mais controle. Comece simples e escale conforme a demanda.
Conclusão
Recomércio deixou de ser alternativa para se tornar estratégia. Os números de crescimento, a mudança de comportamento do consumidor e a pressão regulatória apontam na mesma direção: marcas que integram economia circular à sua operação vão capturar receita que hoje está sendo desperdiçada em devoluções, encalhe e descarte.
Não é preciso criar um programa complexo para começar. Venda o estoque parado, teste um canal de outlet digital, explore parcerias com plataformas de recommerce. A economia circular no e-commerce é construída em etapas — e a primeira etapa é decidir que os produtos que saem da sua operação ainda têm valor.
[cta_newsletter]