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Carta Aberta para Quem Está Começando no E-commerce: O que Eu Gostaria de Ter Ouvido

10 min de leitura

Se você está lendo isso, provavelmente está no começo. Talvez a loja já esteja no ar e o silêncio dói. Talvez ainda esteja pesquisando plataformas, calculando custos, tentando convencer a si mesmo de que vai dar certo. Ou talvez já tenha feito as primeiras vendas e agora esteja olhando para a montanha de coisas que não sabe e se perguntando se está pronto.

Resumo rápido: Isso não significa pular etapas. A verdade que ninguém te conta: opinião não é validação.

Eu já estive aí. Não nesse formato exato — cada começo tem seu contorno — mas conheço a sensação. A mistura de empolgação e pavor. O excesso de informação e a falta de clareza. A solidão de tomar decisões sem ter com quem dividir o peso. Depois de mais de 15 anos nesse mercado, centenas de operações acompanhadas e alguns erros que custaram caro, escrevo esta carta com o que eu gostaria que alguém tivesse me dito quando comecei.

Não é um guia técnico. Para isso, existe o guia completo de como vender online. Isso aqui é uma conversa. Honesta, sem filtro de Instagram, sem promessa de resultado rápido. Só o que eu sei que é verdade depois de ver muita gente construir — e muita gente desistir.

Ninguém vai validar a sua ideia por você

O primeiro instinto é buscar aprovação. Você conta a ideia para amigos, família, colegas. Uns apoiam, outros torcem o nariz, a maioria dá opinião sem ter qualquer experiência no assunto. E você fica numa gangorra emocional: um “que legal!” te joga para cima, um “será que tem mercado?” te derruba.

A verdade que ninguém te conta: opinião não é validação. Validação é alguém pagar dinheiro real pelo que você vende. Antes disso, tudo é palpite — inclusive o seu. A única pesquisa de mercado que importa nesse estágio é colocar o produto na frente de gente real e ver se compram.

Isso não significa pular etapas. Significa que a ordem é: hipótese, teste rápido, dados reais. Não: hipótese, 6 meses planejando, lançamento perfeito. O mercado te dá feedback mais rápido do que qualquer pesquisa — se você tiver coragem de perguntar. Veja os erros mais comuns de quem começa para não repetir o que já vi centenas de vezes.

A loja perfeita não existe — e não precisa existir

Eu sei que você quer que tudo esteja impecável antes de abrir. Fotos profissionais, identidade visual definida, política de troca redigida por advogado, 200 produtos cadastrados. Entendo o impulso. Mas a busca pela perfeição no começo é uma forma sofisticada de procrastinação.

A sua primeira loja vai ser imperfeita. As fotos vão ser razoáveis. As descrições vão ter espaço para melhorar. O layout vai incomodar. E está tudo bem — porque loja no ar com 10 produtos e foto de celular vende mais do que loja perfeita que nunca sai do rascunho.

Comece com o mínimo funcional: produto real, foto honesta, preço calculado, checkout que funciona, frete configurado. O resto você melhora com receita e dados. Cada venda te ensina o que otimizar. A primeira venda importa mais do que a primeira impressão perfeita.

“A loja perfeita é a que vende. Não a que tem o layout mais bonito, a marca mais elaborada ou o catálogo mais completo. Vender é o teste de realidade que nenhuma opinião substitui.”

Babi Tonhela

Disciplina financeira começa no dia 1 — não no dia que dá certo

Este é o conselho que eu daria com letras maiores se pudesse. A maioria dos e-commerces que vi fechar não fechou por falta de venda. Fechou por falta de controle financeiro. Misturar conta pessoal com conta da empresa. Não calcular margem antes de precificar. Reinvestir tudo sem reserva. Comprar estoque com o cartão pessoal “porque facilita”. Cada um desses hábitos parece inofensivo no início. Em 6 meses, é o buraco que engole o negócio.

O que fazer desde o dia 1:

  • Abra uma conta PJ separada. Mesmo que seja MEI. Mesmo que seja conta digital gratuita.
  • Calcule a margem de contribuição de cada produto antes de colocar preço. Se não sabe como, leia o guia de gestão financeira.
  • Faça uma DRE simplificada todo mês. Receita menos custos menos despesas = resultado. Se o número é negativo, você precisa saber — e precisa saber rápido.
  • Defina um pró-labore. Mesmo que pequeno. Misturar o dinheiro da empresa com gasto pessoal é o caminho mais curto para não saber se o negócio é viável.

Não é glamouroso. Não vai render story no Instagram. Mas é o que mantém as portas abertas quando o mês é ruim.

Aprenda a vender antes de aprender a escalar

O mercado digital vende a ideia de escala como se fosse o objetivo do dia 1. “Automatize tudo.” “Escale para 6 dígitos.” “Monte um time.” O que ninguém diz: escalar um negócio que não vende com consistência é como acelerar um carro sem direção. Você vai rápido — para o lugar errado.

Antes de pensar em escala, responda honestamente:

  • Eu sei qual produto vende e qual não vende?
  • Eu sei de onde vêm meus clientes (canal de aquisição)?
  • Eu consigo vender de forma previsível, não só em promoção?
  • Minha margem cobre os custos e sobra algo?

Se a resposta para qualquer dessas perguntas é “não sei” ou “mais ou menos”, o problema não é escala. É fundamento. Resolva o fundamento primeiro. A escala vem depois — e vem mais fácil quando o alicerce é sólido. O guia de como escalar e-commerce só faz sentido depois que essa base existe.

O mito do sucesso rápido vai te machucar se você acreditar nele

As redes sociais mostram o resultado, não o processo. O empreendedor com faturamento de 7 dígitos no palco do evento, a foto com a equipe toda sorrindo, o print do painel de vendas. O que não aparece: os 2 anos vendendo no prejuízo, as noites calculando se dava para pagar o fornecedor, as 3 lojas que fecharam antes dessa dar certo.

Sucesso rápido existe. Mas é exceção estatística, não regra. E quando acontece sem fundamento, costuma ser frágil — o faturamento sobe e desce com a mesma velocidade. O que dura é construção gradual: aprender a operação, conhecer o cliente, ajustar margem, reinvestir com inteligência.

Se depois de 6 meses você está vendendo pouco mas aprendendo muito, você está no caminho. Se depois de 6 meses não vendeu nada e não mudou nada na operação — aí sim tem problema. A diferença entre persistência e teimosia é a capacidade de ajustar o curso.

“Eu nunca vi um e-commerce de sucesso que não tenha passado por pelo menos um momento de ‘não sei se vou conseguir’. Se você está nesse momento, saiba: é parte do processo, não sinal de fracasso.”

Babi Tonhela

Quando pivotar e quando persistir

A pergunta que todo mundo faz e ninguém sabe responder com certeza. “Mudo tudo ou insisto mais?” Não tenho fórmula mágica — mas tenho critérios que ajudam.

Considere pivotar quando: você testou o produto com pelo menos 200-300 visitantes qualificados e a conversão é zero. Você ajustou preço, fotos, descrição e continua sem tração. O feedback dos clientes (ou da falta deles) aponta para um problema de produto/mercado, não de execução.

Persista quando: existem sinais de vida — algumas vendas, perguntas, carrinhos (mesmo abandonados), feedback positivo. O problema é tráfego, não conversão. Você ainda não testou variações suficientes de preço, posicionamento ou público.

Pivotar não é fracassar. É usar dados para corrigir a rota. Alguns dos negócios que mais admiro pivotaram 2, 3 vezes antes de encontrar o encaixe. O erro é pivotar sem dados (por ansiedade) ou persistir sem dados (por orgulho).

Você não precisa fazer tudo sozinho

Mas provavelmente vai fazer, pelo menos no começo. E quando fizer, saiba que é temporário — não é o modelo para sempre. O empreendedor que tenta ser designer, copywriter, gestor de tráfego, atendente, expedidor e contabilista ao mesmo tempo não é herói. É gargalo.

Nos primeiros meses, fazer tudo é aprender a operação. Depois de 6 meses, é recusar a delegar. E recusar a delegar é a forma mais eficiente de travar o crescimento.

Comece delegando o que você faz pior e que toma mais tempo. Pode ser terceirizar a contabilidade. Pode ser contratar um freelancer para fotos. Pode ser usar uma ferramenta de IA para as descrições. Cada hora que você libera de tarefa operacional é uma hora que pode investir em estratégia — e estratégia é o que faz o negócio crescer.

Consulte o kit de sobrevivência do empreendedor digital para montar sua caixa de ferramentas e frameworks.

O valor da comunidade

Empreender é solitário por natureza. Você toma decisões que ninguém ao redor entende. Corre riscos que sua família acha desnecessários. Celebra uma venda de R$ 150 como se fosse um milhão — e ninguém entende por quê.

Busque pessoas que entendem. Grupos de empreendedores, comunidades de e-commerce, consultorias, eventos presenciais. Não pelo networking superficial de trocar cartão. Pela troca real: “estou passando por isso, alguém já passou?” A resposta de quem já viveu vale mais do que dez artigos de blog — incluindo este.

As melhores decisões que vi lojistas tomarem vieram de conversas com outros lojistas. Não de cursos, não de gurus, não de ferramentas. De gente no mesmo barco, compartilhando o que funcionou e o que não funcionou, sem filtro.

O que eu sei depois de 15 anos

Sei que os primeiros 6 meses são os mais difíceis e os mais formativos. Sei que disciplina financeira salva mais negócios do que estratégia de marketing. Sei que o cliente que compra de você pela primeira vez está fazendo um ato de confiança enorme — e que honrar essa confiança é o que constrói marca.

Sei que a maioria das pessoas que começa vai desistir nos primeiros 12 meses. Não porque o mercado é impossível, mas porque a expectativa era diferente da realidade. E sei que quem ajusta a expectativa, aceita o processo e continua construindo — esse chega.

Não chega do dia para a noite. Não chega sem cicatrizes. Mas chega.

“Começar no e-commerce não exige coragem extraordinária. Exige coragem ordinária, aplicada todo dia, durante meses, sem garantia de resultado. Isso é mais difícil do que parece — e mais valioso do que qualquer promete.”

Babi Tonhela

Perguntas Frequentes

Preciso de muito dinheiro para começar no e-commerce?

Não. É possível começar com menos de R$ 2.000 se você escolhe plataforma com plano acessível, começa com poucos produtos e investe em tráfego de forma gradual. O risco não está em começar com pouco — está em começar sem saber quanto precisa para se manter operando por 6 meses. Calcule seus custos fixos, defina uma reserva mínima e comece dentro da realidade.

E se eu não entender nada de tecnologia?

As plataformas de e-commerce atuais são feitas para quem não é técnico. Nuvemshop (25% OFF no 1º mês), Shopify e similares funcionam com arrastar e soltar — não exigem código. O que você precisa é disposição para aprender o operacional: cadastrar produto, configurar frete, conectar meio de pagamento. Tutoriais gratuitos resolvem 90% das dúvidas.

Como lidar com a ansiedade de não vender no começo?

Separando expectativa de prazo. Se você espera vender 100 unidades na primeira semana, vai sofrer. Se define como objetivo aprender a operação e fazer as primeiras 5-10 vendas no primeiro mês, a pressão diminui e o foco vai para o que importa: testar, ajustar, iterar. Ansiedade se reduz com ação, não com planejamento infinito.

Vale a pena largar o emprego para começar no e-commerce?

Na maioria dos casos, não — pelo menos não no início. Comece como projeto paralelo. Valide o produto, faça as primeiras vendas, entenda a operação. Quando o faturamento do e-commerce cobrir seus custos de vida por pelo menos 3 meses consecutivos e você tiver reserva, aí considere a transição. Pular sem rede é romantizado nas redes sociais, mas na prática gera pressão financeira que prejudica a tomada de decisão.

Qual o conselho mais importante desta carta?

Disciplina financeira desde o dia 1. Tudo o mais se ajusta com o tempo — produto, marketing, posicionamento, equipe. Mas se o dinheiro acabar antes de você aprender, o jogo termina. Proteja o caixa como se a sobrevivência dependesse disso. Porque depende.

Para fechar esta carta

Começar no e-commerce é uma das decisões mais corajosas e mais práticas que alguém pode tomar. Corajosa porque envolve risco real, exposição e incerteza. Prática porque o mercado digital brasileiro cresce, as barreiras de entrada são baixas e as ferramentas estão acessíveis como nunca.

Eu não sei se vai dar certo para você. Ninguém sabe. Mas sei que quem começa com expectativa honesta, disciplina financeira, disposição para aprender e paciência para construir — esse tem a melhor chance que existe. Não é garantia. É a melhor chance.

E se em algum momento do caminho você sentir que está sozinho, que ninguém entende, que talvez tenha sido uma má ideia — lembre que milhares de pessoas sentiram exatamente isso antes de construir negócios que sustentam suas famílias e realizam seus objetivos. Você não é exceção. Você está no começo. E o começo é assim mesmo.

Vai. 🤝

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