A estrutura organizacional de uma empresa digital não é detalhe de RH — é escolha estratégica que determina a velocidade de decisão, a capacidade de inovação e a eficiência da operação. Gestão centralizada e gestão por squads são dois modelos opostos, cada um com vantagens reais e limitações claras. Babi Tonhela, CEO da Marketera e do Marketek, resume: “Não existe modelo certo. Existe modelo adequado para o seu momento. Empresa de 8 pessoas que tenta operar com squads está performando estrutura de empresa de 80.”
Resumo rápido: O modelo de squads foi popularizado pelo Spotify em 2012 e rapidamente virou tendência em tech. “Squad é estrutura para empresa que já tem processos, cultura e liderança em cada time.
O modelo de squads foi popularizado pelo Spotify em 2012 e rapidamente virou tendência em tech. O problema é que foi adotado por empresas que têm 15 funcionários e um fundador que ainda aprova tudo — o que torna o squad uma simulação vazia de autonomia.
O que é gestão centralizada?
Na gestão centralizada, as decisões são concentradas em um ou poucos tomadores de decisão — geralmente o fundador ou um pequeno grupo de liderança. A hierarquia é clara: há uma cadeia de comando, e as aprovações seguem por ela.
Vantagens da gestão centralizada:
- Consistência — todas as decisões passam pelo mesmo filtro de valores e estratégia
- Controle — o fundador tem visibilidade completa sobre o que está acontecendo
- Velocidade (paradoxalmente) em empresas pequenas — quando há uma pessoa decidindo, não há reunião de consenso
- Facilidade de correção — quando o rumo está errado, há um ponto claro de mudança
Limitações da gestão centralizada:
- Gargalo no fundador — quando tudo passa por uma pessoa, a empresa cresce até o limite da agenda dessa pessoa
- Dependência crítica — se o tomador de decisão central fica indisponível, a operação para
- Baixo engajamento — equipes sem autonomia tendem a ter menor motivação e maior rotatividade
- Escalabilidade limitada — não é possível crescer sem mudar o modelo
O que é gestão por squads?
Squads são times pequenos (geralmente 5-8 pessoas) multifuncionais e autônomos, responsáveis por um produto ou área de negócio específica. O modelo é inspirado nos “two-pizza teams” da Amazon: se o time não pode ser alimentado com duas pizzas, é grande demais.
No modelo de squads, cada time tem autonomia para tomar decisões dentro de seu escopo, priorizar seu backlog e definir como vai atingir seus objetivos. A coordenação entre squads acontece por OKRs alinhados e rituais periódicos, não por aprovação hierárquica.
Vantagens da gestão por squads:
- Velocidade de execução — times autônomos decidem e executam sem esperar aprovação central
- Engajamento — autonomia gera senso de propriedade e comprometimento
- Capacidade de inovação — times multifuncionais combinam perspectivas diversas para resolver problemas
- Escalabilidade — novos squads podem ser criados para absorver novas áreas sem sobrecarregar a liderança
Limitações da gestão por squads:
- Requer maturidade organizacional — squads sem processos e cultura sólidos geram caos descentralizado
- Duplicação de esforço — times autônomos podem resolver o mesmo problema de formas diferentes e incompatíveis
- Coordenação complexa — alinhar múltiplos squads em torno de objetivos comuns exige rituais bem desenhados
- Requer liderança forte em cada squad — sem um tech lead ou product owner competente, o squad não funciona
“Squad é estrutura para empresa que já tem processos, cultura e liderança em cada time. Se você não tem isso, squad vira silo de desorganização com nome moderno. Antes de implementar squads, pergunte: meus times têm autonomia real ou só o nome?”
— Babi Tonhela, CEO da Marketera e do Marketek
Qual modelo funciona em qual fase da empresa?
A escolha entre centralizado e squads depende principalmente do tamanho da equipe e da maturidade operacional:
- 1-10 pessoas: gestão centralizada é natural e eficiente. O fundador tem visibilidade de tudo e pode intervir rapidamente. Tentar implementar squads com 5 pessoas é prematuridade organizacional.
- 10-30 pessoas: gestão centralizada começa a criar gargalo. É o momento de desenvolver líderes de área e criar autonomia estruturada — o híbrido funciona bem aqui: equipes com gestores intermediários, mas sem squads formais.
- 30-100 pessoas: squads começam a fazer sentido para áreas com produto ou cliente claramente definido. Marketing, produto e tecnologia são candidatos naturais. Operações tendem a manter estrutura mais centralizada.
- Acima de 100 pessoas: squads são praticamente inevitáveis para manter agilidade. A coordenação entre squads é o desafio central — OKRs, rituais de alinhamento e uma camada de liderança sênior são essenciais.
Segundo pesquisa da McKinsey, empresas que implementam modelos ágeis (squads) veem melhora de 30-40% na velocidade de execução — mas apenas quando têm processos e cultura pré-existentes. Sem esses fundamentos, a mesma pesquisa indica que o resultado é caos e queda de performance.
O modelo híbrido: o mais comum em e-commerces brasileiros
Na prática, a maioria dos e-commerces brasileiros de médio porte opera um modelo híbrido: centralização nas decisões estratégicas e financeiras, com autonomia delegada por área funcional.
Uma estrutura típica para um e-commerce com 15-25 pessoas:
- Fundador/CEO: estratégia, finanças, grandes parcerias, cultura
- Operações (5-8 pessoas): estoque, logística, atendimento — com coordenador de operações com autonomia na execução
- Marketing e crescimento (4-6 pessoas): tráfego pago, conteúdo, CRM — com gestor de marketing com autonomia de orçamento dentro de limites definidos
- Produto/tecnologia (3-5 pessoas): desenvolvimento, UX, integrações — com tech lead tomando decisões técnicas de forma autônoma
“A maioria das empresas que conheço funciona bem com o que eu chamo de autonomia estruturada: você define o limite de decisão de cada gestor, e dentro desse limite eles têm autonomia total. Isso não é squad e não é centralizado — é pragmático.”
— Babi Tonhela, CEO da Marketera e do Marketek
Como transitar de gestão centralizada para maior autonomia?
- Desenvolva líderes intermediários: a transição do centralizado exige gestores competentes que possam tomar decisões sem aprovação constante do fundador
- Documente os limites de decisão: defina claramente o que cada gestor pode decidir sozinho e o que requer aprovação — a ambiguidade retarda a transição
- Implemente OKRs para alinhar sem centralizar: squads autônomos precisam de objetivos comuns — OKRs por squad alinhados aos OKRs da empresa é o mecanismo de coordenação
- Faça a transição gradual: comece dando autonomia em uma área, aprenda com o processo e expanda progressivamente
Para entender como desenvolver liderança que suporte essa transição, veja como delegar tarefas e sair do operacional. Para o impacto do modelo de trabalho nessa estrutura, acesse home office vs presencial vs híbrido para e-commerce.
Perguntas Frequentes
Squads funcionam para e-commerces pequenos?
Raramente. Com menos de 20 pessoas, a autonomia de squad sem processos e cultura estabelecidos gera mais desorganização do que eficiência. Para operações pequenas, autonomia estruturada por área funcional é mais eficiente.
Como implementar squads sem perder controle?
Definindo claramente os OKRs de cada squad, os limites de decisão autônoma e os rituais de alinhamento entre squads. Controle em squads não vem de aprovação — vem de métricas claras e transparência de resultado.
Gestão centralizada é ruim?
Não — em empresas pequenas, é muitas vezes a estrutura mais eficiente. O problema é não evoluir o modelo à medida que a empresa cresce. Centralização que funciona com 5 pessoas cria gargalo intransponível com 30.
Qual é o maior erro na implementação de squads?
Implementar o nome sem implementar a autonomia real. Muitas empresas criam squads mas mantêm aprovação centralizada para tudo acima de determinada complexidade — o que destrói o benefício central do modelo.
Como medir se o modelo organizacional está funcionando?
Velocidade de tomada de decisão, engajamento da equipe (eNPS), taxa de cumprimento de OKRs e turnover voluntário são indicadores que refletem a saúde do modelo organizacional. Se decisões demoram muito, o modelo está errado para o momento.
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